
A Experiência do Bem e do Mal
Um mundo de luz e trevas...
Experiência é, para nós, uma palavra de duas semânticas. Uma delas é o verbo experimentar, no sentido de testar, sentir, ver, tocar, passar por um momento. A outra é o adjetivo da quantidade de experimentações que um indivíduo possui, delatando com isso a sua sabedoria. Logo, as experiências conduzem à experiência.
A primeira experiência foi a de ser roubado. Voltando de um excelente show no centro da cidade onde moro, descobrimos que o carro de um amigo, que nos daria carona, tinha sido roubado. Seus pertences haviam sido levados e o meliante ainda nos deixara uma outra herança: para roubar o carro ele teve que desligar o alarme. Para isso, danificou o sistema elétrico e nos deixou impossibilitados sequer de ligar o carro. Os pertences roubados do meu amigo incluíam duas malas cheias de roupa e um óculos caro que ele havia acabado de comprar e nem mesmo havia usado.
A visão do carro violado e grande extensão dos danos nos chocaram profundamente. Lá estávamos nós, sozinhos e impotentes contra tudo o que nos ocorria. A ronda policial que nos atendeu era de uma vontade tal que até um jabuti sesquicentenário nos melhor serviria. Não importava o que tentávamos ou fazíamos, nós nos sentíamos humilhados e vítimados pela maldade ou pela falta de vontade das pessoas.
O malfeitor não apenas nos roubou, mas nos prejudicou a ponto de não termos nem como voltar para casa e chorar nossas perdas. Maldito, maldito, maldito.
Essa é a experiência do mal. Passar por uma experiência como essa é tomar um banho do mundo cão em que vivemos e das realidades mais descabidas que se tornam comuns e somos obrigados a suportá-las.
O mal é espontâneo à medida que, alguém com quem nunca nos indispomos, contra o qual nunca tivemos qualquer tipo de pelega, nem sequer o conhecemos, este nos fará mal gratuitamente. Nossa indignação nasce ao ver que os frutos do nosso dura labor diário foram-nos alienados por alguém que em nada compartilhou de nossos esforços. Simples e puramente, sem que nada tenhamos feito contra este, ele nos feriu, roubou ou importunou. O que fizemos contra ele, para que ele nos faça mal? Nada. O mal é gratuito. O mal é espontâneo.
Quando tudo já se achava perdido e a certeza da maldade nata nos homens era evidente nos acometeu outro fato que também mudaria nossa história.
Sem que pedíssemos, um desconhecido transeunte se ofereceu para nos ajudar. Ao nos observar ali, perdidos, se encheu de compaixão (sentimento que para nós era inexistente) e se dispôs a ajudar no que fosse necessário. Eu, com muita vergonha, mas também sem ter outra opção, liguei para um amigo, na alta madrugada, o tirando do seu tranqüilo sono, para que em algo pudesse nos ajudar. Sua atitude foi de pronta solicitude, como se nem estivesse dormindo, como se estivesse lá apenas esperando um telefona. O outro, que nos ajudou, conseguiu identificar o problema e nos tirar daquela situação de risco com apenas uma ferramenta: boa vontade.
Esta é a experiência do bem. Passar por uma experiência como esta nos leva a um outro mundo possível, pelo qual as coisas simples se tornam grandiosas pelo sentido que lhes atribuímos. Assim é o bem: simples.
O bem é espontâneo por que não o solicitamos, ele se dispõe voluntariamente. Alguém que nunca ajudamos, não pagamos ou recompensamos nos fará o bem gratuitamente. Pelo puro e simples prazer de ser bom. E por imputar em nós o dever de que também o façamos com outrem, quando estes precisarem de nós. De graça e de boa vontade. Decapando fios sujos com os dentes ou atendendo sorridente o telefone de madrugada. O bem é gratuito e espontâneo.
Nossa muralha de incredulidade ruiu. Caíram os tijolos que experiência da maldade havia colocado e rebocado com massa firme. Bem e mal são, ambos, gratuitos e espontâneos. Nascem do nada e trazem conseqüências a ponto de querer-mos repassar aos outros aquilo que nos foi dado: o mal ou o bem.
A gratuidade com que as coisas se apresentam no nosso cotidiano é portadora dessa dimensão de trevas e luz. O acaso traz a oportunidade de ser bom e ruim. Talvez quando o mal nos encara de perto é que deveríamos ser bons. Também é quando a bondade pode ser feita logo ali perto de nós, é que somos ruins.
Mas nesse mundo, caros amigos, tudo é uma questão de experiência...

2 comentários:
Lembra do perrengue que eu passei ai, quando da prova do MPE? Pois é, o que não faltou foi gente para ajudar, apesar de ter quem quisesse atrapalhar e rir da desventura alheia. Teve até uma menina que ficou perambulando pelo centrão conosco indicando endereços de hotéis, perdendo tempo com gente que ela nem conhecia... É por essas e outras que ainda acredito na boa vontade dos homens.
Olha... Os homens são bons, os homens são maus, os homens são... Apenas seres humanos, transcendentes e finitos. Olha meu próximo post, vou discutir sobre isso mesmo...
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