sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Citius, Altius, Fortius

Citius, Altius, Fortius

Finitude e transcendência

Muito se sabe do que é evidente aos olhos. A humanidade vem trabalhando na revelação dos segredos da natureza desde sua infância, sempre em busca de uma razão que lhe agrade ao intelecto e lhe convença os sentidos.

Quando Alexandre o Grande, avançou pela Ásia, quando Vasco da Gama penetrou pelas Índias e Colombo abarcou nas Américas, o mundo foi ficando paulatinamente pequeno, na inversa medida em que cresciam os questionamentos sobre qual era a natureza desse nosso habitat. Qual o porquê de tudo, essa é a sede que move a humanidade.

O domador e seus discípulos, quer seja o corpo ou a mente, disciplinou seus sensos para duvidar do óbvio dos sentidos. Educou o corpo para suportar o insuportável da dor.

O homem se desafiou de forma incansável. Quando se sentiu limitado pelas cavernas, impeliu-se a construir cabanas. O vento e a chuva eram mais ferozes do que elas, e ele construiu casas. O alimento começou a ficar cada vez mais distante para colher e ele se desafiou a plantar. Em todo desafio, em tudo transcendência. Em tudo ele quis transpor-se à natureza, domá-la, entendê-la, transformá-la. Para tudo uma forma, uma fórmula, um jeito.

Por esses dias, andei pensando nisso e no lema olímpico: Citius, Altius, Fortius. O mais rápido, o mais alto o mais forte. Quais são os limites? Quais as barreiras? Onde habitam os demônios da ignorância? E eu digo: em tudo, em todos. O finito do homem é o homem. A barreira do tempo é uma desculpa, é o homem. O espaço é uma mentira, é o homem. É o homem a medida, é o homem a culpa, é o homem a coisa que dá existência ao que existe. É a humanidade que constrói e destrói a humanidade.

È o homem que salta dezessete metros, e o homem que corre cem metros em nove segundos. É o homem que dorme em baixo da ponte e nos palácios do Qatar. O que vive na lama e o que vive na lama: somos todos pais desse esgoto. E em que lugar mora essa corja? Na Europa dos brancos, ou na África dos pretos?

Este que não vê do que são feitos os átomos e que não sabe o que há além do que ele julga finito. Este que não sabe o que houve e o que haverá, antes e depois do tempo. Este que não compreende de onde vem a razão do seu pensamento, que não distingue a nobreza dos sentimentos da frieza química das reações no seu cérebro. Ele sabe que acorda, sente fome, come. Se deseja, transa. Sente vontade, vai ao banheiro. Sente sono, dorme. Sim. O homem é um animal. Lembro-me do filme Amarelo Manga: O homem é isso, estômago e sexo.

Olhar para hoje é passado. O olho dessa geração lê o intertexto do contexto em que vive, mas ignora quem fica nas entrelinhas. Os marginais, os tortos do mundo, os que têm tudo o que não tem valor. Quem desafinou e o mundo desatina. Quem entra no noticiário quando quer se esquecer que é pobre, mas para isso tem de entrar no ônibus cheio de outros menos pobres, sacar o cano da cintura a mandar todo mundo abaixar senão passa fogo. “Passa logo o dinheiro comédia, hoje não está pra brincadeira o negócio aqui não. Cada dia uma treta.”

E tenho outras pertubações. E a questão do que é a verdade, a arte, a ciência ou a religião. Se a fé tem limites, a ciência também. Se a fé tem mandamentos, a ciência tem leis. A fé não precisa de provas como na ciência, mas esta não faz milagres. Se viemos do macaco ou somos todos seres de luz, filhos de Deus. Se é obscuro o pecado e vertiginoso o desejo, um mundo quase sem virgens de qualquer coisa. Sé é feito ser ignorante e bacana ser educado, muitos lêem pouco, compreendem menos ainda.

Mas eu não me assuto pois este, senhores e senhoras, é o homem. Aquele sentado na escada da igreja fumando crack. Aquele na esquina cheirando cola. Aquele que lutou pacificamente e pregou a não violência. Aquele que para se manter no poder explodiu até escolas. Aquela que passou a noite na fila para que o filho pudesse estudar. Aquele que acorda cedo e compra o jornal, toma café e vai trabalhar reclamando do pênalti que o filho da puta do juiz roubou. Aquela que pulou no rio sem saber nadar pra salvar o filho. Aquele que alicia meninas na porta da rua. Aquela que dançou de felicidade quando viu mais uma falcatrua virar pizza. Aquele que ia visitar o avô levando flores, mas foi forçado a mudar de rumo. Aquele que fumou dez conto de beréu e quis curtir com um muleque qualquer. Aquele que vai reconhecer filho desfigurado, irreconhecível. Nós, que vimos tudo isso.

Este é o homem, finitude e transcendência. Este é o fim e o além. Este é o homem... Este é o homem...

2 comentários:

Supermauz disse...

Porra, tu ta poeta hein? hehehehe Saudades docê meu fi! aparece depois! Abração

Petrônio Cândido de Lima e Silva disse...

Graaaaaaaaaaaaande supermauz!!!! Comkicetá meu brother???