sexta-feira, 6 de março de 2009

Milagres

Foi debaixo do sol das três da tarde. O som do carro tocava "You Shook-Me All Nigth Long" do AC/DC à 130Km por hora. O calor ensaboava o pista e os pneus perdem muito a aderência nessas situações. O asfalto tinha grandes ondulações, efeito da sobrecarga dos caminhões que diariamente transitam pela BR. Uma das rodas do Celta escorregou nessas ondulações e eu perdi o controle da direção. Desgovernado, invadi a contramão e logo mais à frente vinha uma Santana cinza-metálico. Instantâneamente pisei no freio, o motorista da Santana fez o mesmo. As minhas rodas travaram e o carro patinou na pista. Não havia tempo, mais um segundo e bateríamos de frente. virei toda a direção para a esquerda, cruzei a minha pista, ultrapassei o acostamento e o carro se projetou no meio do mato.

Falo das proximidades de Curvelo, onde ainda é sertão: terra vermelha, cascalho, árvores retorcidas e o mato que lembra uma braquiara selvagem. E como haviam árvores. Meu carro entrou mato adentro levantando uma nuvem de poeira vermelha e eu desviava de uma árvore grande à esquerda, logo surgiam mais duas à direita e nem sei como me livrei delas também. A qualquer momento, eu pensava, virá um barranco e tudo estará acabado. O barranco não veio, só mais árvores. E se eu batesse em qualquer uma delas também era o fim. O carro patinou no cascalho até que eu pudesse frená-lo, 50 metros mato adentro.

A nuvem de poeira encobriu o Celta branco, fazendo o horizonte sumir.E ela apareceu no meio do nada, com seu vestido preto, sua pele branca e os cabelos da franja entre os olhos.

- Essa foi por pouco.
- É, mas não foi dessa vez. (Um suspiro e uma pausa, as mãos ainda agarradas no volante...)
- Mas haverão outras...
- Se depender de mim, não.

Ela sorriu no canto da boca, como quem diz "Até qualquer dia desses...", deu de ombros e sumiu na nuvem de poeira. Encostei a nuca no escosto do banco. Eu tremia.

Saí do carro e vi que muitos carros e caminhões haviam parado para prestar socorro. O motorista do Santana de longe perguntava se estava tudo bem. Estou ótimo, sem um arranhão, o carro também parece estar OK. Ele me olhou incrédulo, eu também não acreditava que aquilo era possível. Tínhamos presenciado um milagre. Todos naquela estrada não acreditavam no que acabara de acontecer.

Mas não foi dessa vez que a estrada ganhou uma cruz com meu nome.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caracas... foi seu anjo da guarda!
Mas... puxãozinho de orelha... 130km?? Tá querendo correr risco. mas, graças a Deus vc está bem! Fica o susto, a lição e a certeza de que Deus existe. beijocas

Ivana disse...

Contando assim, ficou até bonito. Um tanto quanto póetico, se não fosse trágico!