Cada vez mais mecanicista, cada vez mais cético e cientificista. É como segue o mundo contemporâneo. Com informação nas mãos as pessoas se tornam protagonistas de uma era diferente, em que o conhecimento torna-se algo acessível e morrem os mitos e as sombras da ignorância. Padecem as religiões, antigamente um porto seguro mas agora vistas como o refúgio de tolos e abrigo dos não esclarecidos.Mas no meio da euforia, tipicamente capitalista, surge uma crise que os economistas não conseguem precisar o tamanho e profundidade. Dela só se conhece a existência. Agregada à ela espera-se uma recessão de feições ainda não mensuráveis. Começamos a sentir os efeitos: desemprego aqui, desemprego ali. O poder de compra vai diminuir e com ele a confiança dos consumidores.
Seria desastroso atrelar a confiança do ser humano única e tão somente ao seu poder de compra. Mas em tempos difícieis, quando as pessoas perdem seus empregos, sustento de suas famílias, é que a sua auto-confiança se esvai. Com ela o esclarecimento, a lógica e por vezes, o bom senso.
A crise quando arrocha e obriga empresários a demitir em massa, cria um extenso rebanho de ovelhas num pasto sem horizontes. Desgovernadas, tudo o anseiam é de um pastor para lhes dar guia, comida e água.
É interessante notar como na crise as pessoas lançam mão de suas convicções mais céticas e voltam a procurar as religiões. Especialmente as mais messiânicas, que prometem mundos e fundos inverossímeis à qualquer pessoa esclarecida, mas factíveis à uma pessoa entregue ao desespero. Muitas igrejas pseudo-evangélicas tem esse apelo e movimentos católicos neo-pentecostais também.
Esse evento já é velho conhecido dos estudiosos da religião e é relatada diversas vezes na bíblia. Na minha, uma Bíblia Edição Pastoral, esse processo é chamada de Dinâmica do Processo Histórico, no comentário introdutório do livro de Juízes. Em um determinado momento histórico, as pessoas estão felizes e estabilizadas e se afastam de Deus, achando-se auto-suficientes (pecado). Em algum momento, essa estabilidade vai embora, muito provavelmente por causa de uma crise (castigo). Entregues à desesperança e ao medo, as pessoas se lembram novamente das religiões onde foram criadas e onde eram felizes e resolvem voltar a elas (redenção). Lá encontram refúgio, põem a cabeça no lugar e começam a se reerguer novamente (Graça).
Esse movimento cíclico pecado-castigo-rendenção-graça acontece com todos em medidas distintas. Para mim é um ciclo anual: Há uma época do ano que eu sou um religioso mais atuante... Depois me desligo sem motivo aparente (na verdade, quando as festas começam...). Bate a ressaca moral, um certo desconforto e volto. Por fim eu volto e tento colocar tudo em ordem de novo...
Com a atual crise, vejo esse ciclo histórico claramente. Vejo pessoas que estavam muito bem mas agora perderam seus empregos e magicamente se tornaram pessoas religiosas. Não estou criticando-as, longe de mim e fico feliz que tenham voltado, a Igreja sempre estará de portas abertas, sempre, sempre!!! Sejam todos bem vindos.
Eu me indago é como nós, todos nós, sem excessão, somo apenas ovelhas de memória tão curta.
E especialmente: de gratidão tão ínfima.

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