segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Duas religiões, Duas Ciências

Eu sou uma pessoa que tem duas religiões. Sou católico apostólico romano e sou fiel da ciência também. E procuro ser um pesquisador de duas ciências também. A ciência de Santo Agostinho, a ciência de Newton. Das últimas vezes que expus esse meu paradigma, fui criticado com vemência. Então vamos lá, eu explico.

A ciência e a religião partem do mesmo propósito, que é compreender e explicar o universo, mas diferem nos métodos. O método da ciência é objetivo, impessoal. O método da religião é subjetivo, pessoal. Não há empirismo na religião, a fé de cada um não pode ser vivida por outrem. A fé é uma experiência pessoal de um Deus íntimo. A comunicação dessa experiência pessoal dá origem à religião, que é a fé comunitária, compartilhada por uma comunidade de pessoas.

Os ensaios científicos são sempre reproduzíveis, mantendo-se as mesmas variáveis ambientais onde um determinado fenômeno foi observado, aferido e mensurado. A quantidade de ensaios, que caracterizam uma distribuição de frequências observadas, que é então aproximada à uma distribuição de probabilidades, com as quais se faz projeções. O uso de métodos científicos, forjados por Bacon, Descartes, Newton, aliados por ferramentas matemáticas e estatísticas, confererem à experiência científica um caráter universal, podem ser universalmente repetidas produzindo os mesmos resultados.

É gritante a diferença das metodologias, mas o âmbito das explicações também é diferente. Quem acha que a fé e a ciência rivalizam ao tentar explicar o mundo está equivocado, ao meu ver. Há muito essas duas maneiras de explicar o mundo não mais colidem. Há muito sabe-se que o mito da criação foi uma solução criada pelos judeus da Diáspora, como um método para unificar a religião judaica. Hoje, religiosos sérios não pregam esse mito como uma explicação de como o mundo surgiu, ele é pregado como uma metáfora, não como uma explicação científica. O big bang é como o mundo foi criado, mas ele admite uma visão religiosa sim. Já li, e ficarei devendo à vocês o texto e a fonte, uma excelente visão do big bang, tendo em vista a religião.

A religião e a ciência são complementares porque eles buscam explicar o mundo sob ângulos diferentes. O limite da ciência, quer seja no ínfimo do átomo, do macro do além-infinito, no que havia antes e depois da história, é terreno da religião. Ela busca explicar o que a ciência não tem como provar. E eu não falo apenas de milagres.

A religião, de outro lado, não pode combater o avanço da ciência e da tecnologia, melhor lhe cabe abraçar essas mudanças. Não posso dizer que as coisas acontecem porquê Deus quis ou não. O nosso cotidiano está impregnado com as leis físicas, químicas, sociais e biológicas. É importante que as pessoas que tem religião não se esqueçam do seu livre-arbítrio, e parem de culpar a Deus por tudo o que acontece. A culpa é das pessoas se a sociedade distribui mal as riquezas, ou se o sexo está em tudo, não é culpa do diabo. São as pessoas e suas decisões que tornam o mundo o que ele é.

A ciência é uma religião também. Exige que as pessoas tenham fé nos seus prodígios. Tenha fé nos axiomas não explicados, tenha fé nas teorias sem comprovação. Acredite no que o médico, tão humano quanto eu ou você, prega que é melhor para toda a humanidade. Tenha fé, ele sabe o que diz. Sim sim, a ciência também tem muitas teorias fortes e que ainda carecem de explicação, a física está cheia delas. A matemática também tem um séquito de problemas não resolvidos, que expõem os limites da própria matemática.

Eu tenho fé. Nas pessoas, na ciência e na religião da qual eu comungo. Eu tenho senso crítico para refletir sobre tudo isso também. Não me sinto divido entre duas religiões ou duas ciências. Não é a fé, mas a razão que me diz que tudo é uma coisa só.

Um comentário:

Jaqueline Faria disse...

PC adorei o texto, ficou muito rico e explicativo. Afinal sabemos que esses assuntos causam grandes discussões e controvérsias... rsrs.
Porém, continuo tendo crença, não religião hehe.

Bj