
Há algum tempo recebi por msn a notícia de que ia ganhar um presente. Passando pelo centro da cidade viram uma coisa que era a minha cara e resolveram me dar. Diante da notícia eu me encontrei numa cilada... Tal fato merecia uma contrapartida de igual relevância. Mas como eu não sabia do que se tratava o tal presente, como retribuir à altura?
Presentes são mimos arriscados. Quando dizemos que vimos algo que é a cara de alguém, na realidade estamos dizendo que vimos algo que é a cara de como nós enxergamos alguém, ou seja, a nossa impressão de como a pessoa é. Logo procurei um espelho da contraparte em questão. Como ela se parecia para mim? Não saberia comprar roupas ou sapatos e nem arriscaria um CD ou DVD, pois desconhecia o gosto por completo.
Ora, por que não achar um espelho dela em mim? Algo que eu acho que lhe seja parecido, mas que esteja ao meu modo de vê-la. Fui à livraria. Tão logo comecei a passear pelas estantes vi um livro, "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector. O nome me pareceu conveniente pois me lembro de relatos dela com seu pai e irmã, de como às vezes era necessários omitir alguns fatos, para manter a convivência em dia. Foleando o livro, vi um conto chamado "Miopia Progressiva". Fechou. Na hora. Míope escondida por lentes discretas, para ela esse se revelara o presente perfeito.
É chegada a hora da troca de presentes. Para minha supresa, ganhei um cantil-chaveiro, extremamente útil para minhas desventuras etílicas e ela acertou em cheio. Mais do que pragmático, o presente era realmente a minha cara. (É... cachaceiro mesmo, e daí?)
Dei-lhe o meu presente. Ficou feliz e se comprometeu a lê-lo todo, tendo lido parte do conto em questão ali mesmo. Me cobrou uma dedicatória e eu disse que não.
Dar um livro sem dedicatória eh um crime. Um crime que eu intencionalmente cometi. Se você dá um livro e promete a dedicatória para depois é como se você esquecesse as suas chaves na casa de alguém. Você é obrigado a voltar.
Pois eu tenho me esquecido, ou protelado, a dedicatória há dias. É o meu signo de querer voltar, de ter uma desculpa, de ter uma oportunidade de desfazer o meu erro.
E sigo voltando sempre que dá, para me assegurar que os contos foram lidos, um à um. Para me assegurar que a folha onde escreverei a dedicatória continua limpa.
Aos efeitos da cachaça em mim eu apelidei carinhosamente de Miopia Progressiva. Da prosa de Clarice Lispector, pouco sei a respeito na realidade. Mas se algum dia eu a escrever a bendita dedicatória, talvez seja porque eu naum possa mais voltar.
Ou talvez porque eu vá ficar pra sempre...

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